(Nota do autor: A história a seguir é uma composição ficcional, criada para proteger a privacidade de todos. Embora não represente uma única pessoa, ela é inspirada em jornadas reais de cura que testemunhamos em nosso trabalho.)
Miguel tinha 42 anos e era um mestre de obras de uma vida que ele não habitava. Arquiteto premiado, apartamento com vista, passaporte carimbado. Ele tinha tudo. E não sentia quase nada.
A vida de Miguel era uma obra-prima de engenharia mental. Emoções eram problemas a serem resolvidos com lógica. A tristeza era ineficiência. A alegria, um pico de performance. Ele não vivia sua vida; ele a gerenciava. Era o CEO de uma existência que acontecia a meio metro de distância de seu próprio corpo.
A dor não era aguda. Era uma anestesia crônica. Um zumbido baixo e constante de “é só isso?”.
O ponto de virada não foi uma crise. Foi um silêncio. Numa praia tranquila, sem projetos ou problemas, o zumbido do vazio se tornou ensurdecedor. Pela primeira vez, ele se deu conta: não sabia como simplesmente estar.
O desespero silencioso o levou, cético, a uma sessão de terapia corporal. Sua mente buscava uma técnica. Encontrou um convite para o oposto.
A primeira instrução não foi “faça”. Foi “sinta”. Sinta seus pés no chão. Miguel, o arquiteto de prédios, foi convidado a sentir a própria fundação. Apenas testemunhar a respiração foi desconcertante. Mostrou a ele por que sentir é tão difícil.
A grande transformação não veio de uma catarse. Veio de uma xícara de chá.
No meio de uma sessão, o terapeuta lhe ofereceu um chá e disse: “Apenas beba este chá”. E, guiado, Miguel sentiu. O calor da cerâmica em suas mãos. O vapor tocando seu rosto. O aroma que não era apenas “chá”, mas terra, folha, água. O primeiro gole… e a sensação de um rio quente descendo por uma garganta que ele não sabia estar tão seca.
Naquele instante, não havia projetos, passado ou futuro. Havia apenas chá. E, pela primeira vez em anos, Miguel estava ali. Uma lágrima silenciosa escorreu. Não de tristeza. De reencontro.

A jornada de Miguel foi uma sucessão de pequenas redescobertas: o sol na pele, o som da chuva, o prazer de uma caminhada sem destino. Ele entendeu que sua vida inteira tinha sido um platô, uma paisagem vista de longe, sem cor.
Hoje, Miguel ainda é arquiteto. Por fora, sua vida não mudou tanto. Por dentro, tudo é diferente. Ele não a gerencia. Ele a habita. Descobriu que a soberania não é o controle sobre tudo, mas a presença para estar com tudo.
Ele parou de projetar arranha-céus para o mundo e começou a cuidar do seu próprio chão. E descobriu que ali, na simplicidade do corpo, residia a única fundação que jamais ruiria.